english  italiano  português

parceiros

Marciel Consani
Meu primeiro professor de violão (Mio Primo Maestro di Chitarra)


Viver pela Pena
Se eu fosse definir o que faço para viver, eu diria "escrevo". Isso desde sempre, sem muito controle, como uma função fisiológica ou movimento natural. A única coisa que mudou nos últimos 33 anos (desde que eu aprendi a ler, eu acho) foi que eu tive que aprender um jeito de ganhar a vida escrevendo, sejam artigos (www.moderna.com.br/arte/musica), projetos, monografias ou planos de aula. Aqui, há uma diferença fundamental: sempre gosto de escrever, mas escrever o que mais gosto é um dos maiores prazeres. O que gosto de escrever são letras de música.

Inveja e teimosia
Costumo dizer que os pensamentos nobres inspiram o homem mas que as ações geralmente partem de seus instintos mais ignóbeis. Assim, creio que abracei a música por uma mistura de inveja e teimosia. Inveja de um cara cercado de garotas porque sabia tocar "Woman no Cry" e teimosia quando meu primeiro professor de violão me sugeriu tentar outra modalidade artística por não conseguir tocar e cantar coordenadamente uma valsa a dois acordes. Por coincidência (será que elas existem?) o cara que tocava e o professor eram o mesmo sujeito, seu nome: Nelson Machado.

Patolo... o quê?
Corria o ano de 1982, nuvens negras pairavam sobre o Cone Sul das Américas, ante a perspectiva de uma guerra sangrenta - que de fato ocorreu - entre Argentina e Inglaterra. Mas na imensa periferia da cidade de São Paulo, o clima era muito mais festivo: acontecia o grande "boom" do rock brasileiro (com vinte anos de atraso) e as garage-bands estavam por toda parte, ocupando não só garagens, mas também porões e quartos-dos-fundos. É claro que o conhecimento técnico dos "artistas" e a qualidade de seus instrumentos eram precários, assim como eram inconstantes as formações - e os nomes - das jovens bandas. Mas nada disso importava muito: os garotos e garotas que acabavam o ginásio muitas vezes se interessavam por "brincar com música", ainda que planejassem fazer coisas tão diferentes na vida quanto trabalhar em bancos, vender imóveis ou trabalhar com "Patologia Clínica" (laboratório de análises).

O que você está fazendo aqui?
Num desses encontros improváveis que só a realidade patrocina, encontrei Nelson Machado num curso de laboratório médico. Eu achava que sabia o que estava fazendo ali, ele, nem isso. A banda chamava-se Equus, que se extinguiu para dar lugar ao Salada Mixta. Penso em todos aqueles domingos que não voltam mais, em que eu poderia ter ido ao cinema, namorado mais ou ficado em casa no "far niente". Pensando bem, valeram a pena os ensaios intermináveis, os festivais incertos e as brigas por causa da palavra certa. Na verdade, tudo era - e ainda é - parte de um mistério imenso que, longe de acabar, só me leva para onde eu gosto de estar. Como eu disse: o que gosto de escrever são letras de música.